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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

CIÊNCIA E ESPIRITISMO - Excelente

“É próprio de todas as grandes verdades receber o batismo da perseguição; as animosidades que o Espiritismo suscita são a prova de sua importância, porque, se fosse julgado sem importância, não se preocupariam com ele”. (KARDEC).

Ciência e Espiritismo

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito: 2.1. Sentidos da Palavra Ciência; 2.2. Características da Ciência; 2.3. Algumas Definições. 3. Histórico. 4. Relação entre Ciência e Religião. 5. Ciência Espírita: 5.1. Ciência Natural e Ciência Espírita; 5.2. Experimentadores Espíritas. 6. Cultivo da Ciência Espírita. 7. Conclusão. 8. bibliografia Consultada

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é mostrar que a teoria espírita não parte de idéias preconcebidas e imaginárias; é fruto de um árduo trabalho de pesquisa das inter-relações entre matéria e Espírito. Para tanto, procede da mesma forma que a ciência natural. Para que possamos desenvolver as nossas idéias, preparamos um pequeno roteiro: conceito, histórico, relação entre ciência e religião, ciência espírita e cultivo da ciência espírita.

2. CONCEITO

2.1. SENTIDOS DA PALAVRA CIÊNCIA

A palavra ciência é usada com diversas significações. Em sentido amplo, ciência significa simplesmente conhecimento, como na expressão tomar ciência disto ou daquilo; em sentido restrito, ciência não significa um conhecimento qualquer, e sim um conhecimento que não só apreende ou registra fatos, mas os demonstra pelas suas causas determinantes ou constitutivas. (Ruiz, 1979, p. 123)

2.2. CARACTERÍSTICAS DA CIÊNCIA

Cumpre observar que as definições de ciência são numerosas. Seria mais coerente enumerar algumas de suas características, ou seja:

2.2.1. Conhecimento pelas causas

Ao contrário do conhecimento vulgar, o conhecimento científico implica em conhecer pelas causas. Se o cientista observa a chuva, ele quer saber porque chove, dispensando a influência dos deuses. Age da mesma forma com relação a um fato político. Com respeito ao aparecimento de Napoleão Bonaparte no quadro político internacional, o cientista não dirá simplesmente que Napoleão fora um gênio militar, mas procurará as causas políticas e econômicas que o fizeram emergir no cenário mundial.

2.2.2. Profundidade e generalidade de suas condições
O conhecimento pelas causas é o modo mais íntimo e profundo de se atingir o real. A ciência não se contenta em registrar fatos, quer também verificar a sua regularidade, a sua coerência lógica, a sua previsão etc. A ciência generaliza porque atinge a constituição íntima e a causa comum a todos os fenômenos da mesma espécie. A validade universal dos enunciados científicos confere à ciência a prerrogativa de fazer prognósticos seguros.

2.2.3. Objeto formal
A finalidade da ciência é manifestar a evidência dos fatos e não das idéias. Procede por via experimental, indutiva, objetiva; suas demonstrações consistem na apresentação das causas físicas determinantes ou constitutivas das realidades experimentalmente controladas. Não se submete a argumentos de autoridade, mas tão-somente à evidência dos fatos.

2.2.4. Controle dos fatos
Ao utilizar a observação, a experiência e os testes estatísticos tenta dar um caráter de exatidão aos fatos. Embora os enunciados científicos possam ser passíveis de revisões pela sua natureza “tentativa”, no seu estado atual de desenvolvimento, a ciência fixa degraus sólidos na subida para o integral conhecimento da realidade. (Ruiz, 1979, p. 124 a 126)

2.3. ALGUMAS DEFINIÇÕES

· Conhecimento certo do real pelas suas causas.

· Conjunto orgânico de conclusões certas e gerais metodicamente

·  demonstradas e relacionadas com objeto determinado.

· Atividade que se propõe demonstrar a verdade dos fatos experimentais e suas aplicações práticas.

· Estudo de problemas solúveis, mediante método científico.

· Conjunto de conhecimentos organizados relativos a uma determinada matéria, comprovados empiricamente. (Ruiz, 1979, p. 126)

3. HISTÓRICO

Garcia Morente, em Fundamentos de Filosofia, ao analisar o conceito de filosofia através dos tempos, conduz-nos à origem da ciência. Diz-nos ele que todo o conhecimento desde a Antigüidade clássica até a Idade Média era entendido como sendo filosófico. Somente a partir do século XVII, o campo imenso da filosofia começa a partir-se. Começam a sair do seio da filosofia as ciências particulares, não somente porque essas ciências vão se constituindo com seu objeto próprio, seus métodos próprios e seus progressos próprios, como também porque pouco a pouco os cultivadores vão igualmente se especializando. (1970, p. 28)

Devemos deixar claro que as ciências, por essa mesma razão se completam e uma necessita da outra. Observe que a Astronomia, a primeira das ciências, só atingiu a maioridade, depois que a Física veio revelar a lei de forças dos agentes naturais.

O Espiritismo entra nesse processo histórico dentro de uma característica sui generis, ou seja, enquanto a ciência propicia a revolução material, o Espiritismo deve propiciar a revolução moral. É que Espiritismo e Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação. O estudo das leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade, porque a matéria é que primeiro fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria abortado, como tudo quanto surge antes do tempo. (Kardec, 1975, p. 21)

4. RELAÇÃO ENTRE CIÊNCIA E RELIGIÃO

A estrutura do pensamento na Idade Média estava condicionada à Escolástica, movimento filosófico religioso, que submetia a razão à fé. Havia tamanha ingerência da Igreja nas questões sociais, políticas e econômicas, que por qualquer desvio da ordem preestabelecida, muitos acabavam pagando com a própria vida por tal heresia. Acontece que as coisas se modificam e a verdade acaba por vencer os erros da ignorância.

Galileu, em 1609, constrói o telescópio e, com isso, muda radicalmente a visão do homem quanto ao Universo e à própria vida. Porém, o Santo Ofício contrapunha: o telescópio poderia, com efeito, revelar coisas inacessíveis à vista desarmada. Mas revelava-as, no dizer dos críticos, por mediação do demônio: era uma forma de magia e, por isso, fundamentalmente uma ilusão. Copérnico, Kepler e Galileu estavam a transformar o mundo visível num jogo de sombras. O Sol não se movia, a Terra sim, o céu tinha fantasmas escondidos. (Bronowski, 1988, p. 138)

Dizia Galileu acerca do uso de citações bíblicas nos assuntos da Ciência: “Parece-me que na discussão de problemas naturais, não devemos começar pela autoridade de passagens da Escritura, mas por experiências sensíveis e demonstrações necessárias. Pois, quer a Sagrada Escritura, quer a natureza, procedem ambas da Palavra Divina. (Bronowski, 1988, p. 140)

A consciência religiosa impregna-se de tal maneira em nosso psiquismo que não somos capazes de mudá-la a contento. Observe a perseguição que Calvino imputou a Serveto, médico e cientista que vivia em França, e que escreveu um livro atacando a doutrina ortodoxa da Trindade. A fúria de Calvino foi a ponto de, sendo ele mesmo herético da Igreja Católica, ter secretamente acusado Serveto de heresia junto da Inquisição católica da França. Embora o seu livro não tivesse sido escrito nem publicado em Genebra, Calvino prendeu Serveto e queimou-o na Fogueira. (Bronowski, 1988, p. 110)

Essa divergência entre ciência e religião continua ainda nos dias que correm. Contudo, de acordo com Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a Ciência e a Religião não puderam se entender até hoje, porque, cada uma examinando as coisas sob seu ponto de vista exclusivo, se repeliam mutuamente. Seria preciso alguma coisa para preencher o vazio que as separava, um traço de união que as aproximasse; esse traço de união está no conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corporal, leis tão imutáveis como as que regem o movimento dos astros e a existência dos seres. Essas relações, uma vez constatadas pela experiência, uma luz nova se fez: a fé se dirigiu à razão e a razão não tendo encontrado nada de ilógico na fé, o materialismo foi vencido. (1984, p. 37)

5. CIÊNCIA ESPÍRITA

5.1. CIÊNCIA NATURAL E CIÊNCIA ESPÍRITA

As Ciências Naturais, com o passar do tempo, deixaram de ser dogmáticas para serem teóricas experimentais. Elas tornam-se positivas, ou seja, baseiam-se em fatos. Uma determinada teoria só existirá como lei se comprovada pelos fatos. O Espiritismo não foge a essa regra e age da mesma sorte. Assim:

Ciência Natural: o conhecimento é fundamentado na observação e experiência. Formulam-se HIPÓTESES baseadas na percepção sensorial. Sobre as hipóteses estabelecem-se, dedutivamente CONSEQÜÊNCIAS. As conseqüências serão aceitas como verdadeiras, se confirmadas pela observação e experiência — pela percepção sensorial.

Ciência Espírita: o conhecimento é fundamentado na observação e experiência mediúnicas. Formulam-se HIPÓTESES baseadas na mediunidade. Sobre as hipóteses estabelecem-se, dedutivamente CONSEQÜÊNCIAS. As conseqüências serão aceitas como verdadeiras, se confirmadas pela observação e experiência mediúnicas — pela mediunidade.

O procedimento é idêntico. A diferença consiste na natureza das percepções consideradas. Desde que fique certificado que as percepções sensoriais e as percepções mediúnicas têm a mesma validade, o conhecimento é igualmente válido. (Curti, 1981, p. 17)

5.2. EXPERIMENTADORES ESPÍRITAS

W. Crookes falecido em 1910 inicia a era científica do Espiritismo com as suas célebres experiências realizadas de 1870 a 1874, com os médiuns Dunglas Home, Kate Fox e Florence Cook, tendo obtido a materialização completa, integral, de um Espírito falecido numa recuada época, katie King, que Crookes estudou durante três anos consecutivos, em colaboração com outros sábios ingleses, fato que teve uma repercussão mundial. Empregou método rigorosamente científico, inventando e adaptando variados aparelhos registradores. (Freire, 1955, p. 95)

Gabriel Dellane em O Fenômeno Espírita relata a criação de vários aparelhos medidores da força psíquica. A experiência de Robert Hare é sugestiva: “A longa extremidade de uma prancha foi presa a uma balança espiral, com um indicador fixo para marcar o peso. A mão do médium foi colocada sobre a outra extremidade da prancha, de modo que, qualquer pressão que houvesse, não pudesse ser exercida para baixo; mas, pelo contrário, produzisse efeito oposto, isto é, suspendesse a outra extremidade. Com grande surpresa sua, esta extremidade desceu, aumentando assim o peso de algumas libras na balança”. (1990, p. 66)

Não são poucos os nomes ligados à experimentação espírita. Cabe destacar que a maioria deles foram ao fenômeno para desmascarar os médiuns, chamados de embusteiros. Como eram cientistas e valiam-se dos fatos, acabaram sendo convencidos pela verdade mediúnica.

Os ingleses, por exemplo, tem um aparelho, baseado nos eletroencefalogramas, destinado a medir as vibrações dos neurônios cerebrais quando um indivíduo está em transe, e verificar se se trata de fenômenos anímicos ou da inteligência de uma outra mente.

6. CULTIVO DA CIÊNCIA ESPÍRITA

· A conquista dos segredos da natureza exige pesquisa paciente e metódica. Ninguém pretenda alcançar o conhecimento das leis naturais, agindo atabalhoadamente, sem um roteiro, sem um sistema racional, sem um método.

· O método não significa exclusivamente ordem. Faz, também, parte integrante dele a honestidade, o amor à verdade, o equilíbrio emocional, a ausência de prejuízos doutrinários e muitas outras atitudes positivas devem aureolar o verdadeiro investigador.

· Lembremo-nos de que o maior inimigo do pesquisador espírita é, sem dúvida, o seu emocional, carregado muitas vezes do pensamento mágico.

· Toda experiência carece ser cuidadosamente planejada e seus resultados submetidos a rigorosa análise. Ao legítimo pesquisador não interessa seja confirmada este ou aquele ponto vista, e sim revelado qual o que está certo. Para ele só há um objetivo: a verdade.

· Toda experimentação precisa ser repetida um grande número de vezes, e seus resultados convém anotados cuidadosamente para posterior tratamento estatístico.

· O Pesquisador científico do Espiritismo deve ter conhecimento das Ciências Naturais e da matemática. (Andrade, 1960, cap. II)

· Não se aprende a ciência espírita sem tempo para reflexão. Por isso, nada de precipitação. O correto é aplicar-se de maneira exaustiva, excluir toda a influência material, e observar criteriosamente os fenômenos, tanto os bons quanto os maus.

7. CONCLUSÃO

A ciência aumentou sobremaneira a capacidade de instrumentalização do homem. Desenvolvendo tecnologias avançadas, liberou a mão de obra para atuar na área de serviços e pesquisas científicas. À medida que a ciência avança, o indivíduo fica com mais tempo livre. Os princípios espíritas auxiliam não só a dar uma direção ao tempo livre do homem como também na criação e na utilização da nova tecnologia. Sem uma clara distinção entre o bem e o mal, podemos enveredar todo o nosso progresso científico para a destruição do nosso planeta.

O Espiritismo surgiu no momento oportuno, quando as ciências já tinham desenvolvido o método teórico-experimental, facilitando a sua aceitação com mais naturalidade. Sabe-se que cada um deve progredir por si mesmo, descobrindo as suas próprias verdades. Porém, a presença de um professor diminui o tempo que levaríamos, caso quiséssemos descobrir tudo por nós mesmos. O Espiritismo é esse professor que nos estimula o pensamento na busca da verdade e na prática da caridade como meio de salvação de nossas almas.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ANDRADE, H. G. Novos Rumos à Experimentação Espirítica. São Paulo, Livraria Batuíra,1960. 
BRONOWSKI, J. e MAZLICHE, ___. A Tradição Intelectual do Ocidente. Lisboa, Edições 70, 1988.
CURTI, R. Espiritismo e Reforma Íntima. 3. ed., São Paulo, FEESP, 1981.
DELANNE, G. O Fenômeno Espírita. 5. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1990.
FREIRE, J. Ciência e Espiritismo (Da Sabedoria Antiga à Época Contemporânea). 2 ed., Rio de Janeiro, FEB, 1955. 
GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições Preliminares. 4. ed., São Paulo, Mestre Jou, 1970.
KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo, IDE, 1984.
RUIZ, J. A. Metodologia Científica - Guia para Eficiência nos Estudos. São Paulo, Atlas, 1979.

A Ciência Espírita ou do Espírito

Pedro Franco Barbosa

Nota prévia do Autor: Neste artigo resumimos o que nos parece uma situação de fato, relativa ao importante aspecto científico da Doutrina. Estaremos errado? Fomos pessimista? Agradecemos, por antecipação, os esclarecimentos que possamos provocar, por parte dos mais capazes na apreciação do assunto.

  1. Allan Kardec e a definição de Espiritismo, sob o aspecto científico. Depois de Kardec.
  2. A Ciência e seus métodos.
    • Que é Ciência? Fato, observação, experimentação, hipótese, leis.
    • O fenômeno físico e o fenômeno espírita (mensuração diferente).
    • Mudamos ou muda a Ciência? O dogma científico e seus prejuízos.
    • Os preconceitos.
  3. Crítica aos espíritas.
    • Não há pesquisa; a experimentação parou no tempo.
    • Carência de recursos e estudos apropriados.
    • Crookes examinou os fenômenos, não formulou leis.
    • Bozzano e seus esforços nesse sentido.
    • Zollner e suas teorias.
    • O apelo de Emmanuel.
  4. A contribuição de Richet. A criptestesia espíritica.
    • A Parapsicologia: de Rhine até hoje.
    • Os físicos e sua contribuição ao estudo dos fenômenos extra-físicos (anímicos).
  5. Conclusões.
1. Allan Kardec e a definição do Espiritismo, sob o aspecto científico.

Allan Kardec assim definiu o Espiritismo:

“É uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”. – O QUE É O ESPIRITISMO.

E disse mais:

“Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental”. A GÊNESE (Cap. I, 14)

O estudo dos fenômenos espíritas e a formulação das leis que os regem constituem, pois, uma ciência, de observação, progressiva, a Ciência espírita.

Depois de Kardec.

Depois de Kardec, o Codificador, vultos notáveis do Espiritismo reafirmaram o caráter científico da Doutrina Espírita, expressando de modo positivo seu pensamento:

“O Espiritismo deixa de parte as teorias nebulosas, desprende-se dos dogmas e das superstições e vai apoiar-se nas base inabalável da observação científica” – Gabriel Delanne, em O ESPIRITISMO PERANTE A CIÊNCIA.

“O Espiritismo é uma ciência cujo fim é a demonstração experimental da existência da alma e sua imortalidade, por meio de comunicações com aqueles aos quais impropriamente se têm chamado mortos” – Gabriel Delanne, em O FENÔMENO ESPÍRITA.

“A Ciência Psíquica visa um fim, estuda uma ordem de fatos, emprega métodos, processos e instrumentos exclusivamente seus: cria teorias, estatui princípios, estabelece leis, satisfaz assim e preenche todos os requisitos exigidos pelos foros científicos” – A. Pinheiros Guedes, em CIÊNCIA ESPÍRITA.

“Os fenômenos espíritas estão tão bem comprovados, como os fatos de todas as outras ciências” – Russel Wallace.

A expressão “O Espiritismo será científico ou não subsistirá”, atribuída ao Codificador e citada por confrades, em seus escritos, não é encontrada em nenhuma obra de Allan Kardec.

‘... esta é uma ciência positiva, baseada no estudo experimental dos fenômenos psíquicos e nos ensinamentos dos espíritos elevados” – Gustavo Geley, em RESUMO DA DOUTRINA ESPÍRITA.

Há uma teoria espírita, documentada na prática mediúnica, acerca da sobrevivência do Espírito e de suas relações com o mundo corporal, material ou físico, mas ainda não comprovada pela Ciência.

Naturalmente, não por culpa dos espíritas, que cooperariam com entusiasmo, se a Ciência se decidisse a pesquisar os fenômenos mediúnicos, atendendo às suas peculiaridades e empregando, nas pesquisas, os métodos apropriados.

2. A Ciência e seus métodos.

Que é Ciência? Fato, observação, experimentação, hipóteses, leis. O fenômeno físico e o fenômeno espírita (mensuração diferente). Mudam os fatos ou muda a Ciência? O dogma científico e seus prejuízos. Preconceitos.

Vimos que, seja o Codificador, sejam os vultos eminentes da Doutrina, que o precederam, todos atestam, sem discrepância, o caráter científico do Espiritismo.

- Como a Ciência encara o Espiritismo científico?

Podemos dizer que a Ciência é a “soma de conhecimentos certos, ordenados em harmoniosa síntese lógica, reduzidos a um corpo de doutrina! (2) – Conhecimentos certos porque correspondem a uma realidade objetiva, à qual chegamos pela aplicação de métodos de investigação adequados; síntese lógica, isto é, são coerentes, sem contradição estrutural; corpo de doutrina, ou sejam conjunto de princípios.

O material da Ciência são todos os fenômenos naturais, porque ela se apoia em fatos. Stuart Mill já dizia que a linguagem da Ciência deve ser: “Isto é ou não é; isto se dá ou não se dá”.

A Ciência pergunta “como?” e busca conhecer os fenômenos e descobrir as leis que os regem.

Karl Pearson, em sua GRAMÁTICA DA CIÊNCIA, ensina que “O método científico caracteriza-se pelo seguinte:

  1. cuidadosa e acurada classificação, de fatos e observação de sua correlação e seqüência;
  2. descobrimento das leis científicas com o auxilio da imaginação criadora;
  3. auto-crítica e pedra de toque final de validade para todos os espíritos normalmente constituídos”.

O método científico (indutivo) de Galileu e Newton, é aquele que se acumulam dados experimentais (Bacon), formulam-se hipóteses de trabalho, seguidas de rigorosa experimentação (cartesianismo), para que as teorias se ajustem aos fatos e não vice-versa.

O fim primário da Ciência não é explicar nem indagar o porquê das coisas, mas afirmar: “isto resulta daquilo”.

Temos, desdobramento, a observação de uma ou várias coisas (fenômenos, fatos); a formulação da hipótese, uma explicação provisória; a experimentação, ou repetição do fenômeno para testar a hipótese; a indução, ou seja, a extensão do nexo aos vários casos idênticos; lei, que contém os princípios, e a teoria, que explica o como, não o porquê, que este incumbe à filosofia.

Entretanto, os postulados da Ciência estão sempre a mudar, pela ocorrência de novas descobertas. Ciência é, pois, conhecimento trabalhado, corrigido e sempre acrescido, porque ela é progressiva.

O caráter positivo da Ciência obriga-a ao exame frio dos fatos. O próprio Kardec observou: “Desde que a Ciência saída da observação material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar, o campo está aberto às conjeturas” – O LIVRO DOS ESPÍRITOS (Introdução).

(1) Há mesmo alguns confrades, que numa evidente falta de visão global da Doutrina, afirmam ser o Espiritismo pura e simplesmente Ciência.

(2) Ver INTRODUÇÃO À FILOSOFIA, do Pe. Francisco Leme Lopes, AGIR Editora.

A Ciência, emancipada da fé, organizou seus processos de trabalho, os seus métodos e suas regras, como meio de encontrar a verdade. Assim, observa os fenômenos, formula hipóteses para explicá-los, repete experiências para confirmar as hipóteses, que podem sofrer adiamento, ser abandonadas ou transformadas em lei. Um dia, esta pode ainda ser substituía.

A Ciência assinala a dificuldade da experimentação nos fenômenos psi, cuja repetividade é difícil; com relação aos fatos espíritas, não os admite de maneira alguma. Alguns cientistas isolados, de alto gabarito intelectual, entretanto, deles têm tratado, como sabemos.

Há manifesta animosidade com relação à explicação desses fatos pelo Espiritismo. Mas é preciso compreender até certo ponto a posição da Ciência, acostumada a raciocinar em termos de leis físicas e não se revelações.

Aliás é preciso convir que há idéias que como que surgem antes do tempo, (a teoria atômica, de Demócrito, por exemplo), e só mais tarde se cristalizam e entram para o rol dos fatos consumados. Pelo menos, para a maioria das criaturas ou para grupos específicos, menos receptivos. Nem sempre o Espírito encarnado se apercebe, no tempo, da magnitude de um fato ou ocorrência, mas sempre realiza em outra encarnação aquilo que devia fazer numa precedente, omitindo-se, no entanto.

Assim se torna mais fácil compreender porque a Ciência só pode aceitar explicação quando cientificamente verificada; só pode falar do que conhece objetivamente. Por isso, não constitui prova para a Ciência as chamadas provas anedóticas (2), impossíveis de verificação pelo cientista.

Na verdade, porém, com relação aos fatos espíritas, fatos também naturais, a Ciência se mostra de uma relutância a toda prova, que nada a dignifica. Nega-se sistematicamente e de pronto.

UM autor espírita (3) já escreveu que os fenômenos mediúnicos não são pesquisados ou são mesmo negados:

  1. pela imaturidade dos cientistas, (espiritual, naturalmente);
  2. pelo atraso das sociedades científicas;
  3. pelo medo do ridículo e da verdade.

Essa atitude vem de longe, como se infere da história da Ciência e um pequeno exemplo é suficiente para caracterizar.

(1) A esfera da Ciência é a dos fenômenos demonstráveis. Alega ela, assim, a dificuldade de repetição do fenômeno espírita, esquecida de que, para sua ocorrência, exigem-se condições especiais, mas não impossíveis, eis que decorrem de três vontades independentes: a do médium ou intermediário, a do pesquisador e, sobretudo a do Espírito, nem sempre à nossa disposição. Há que considerar, também, condições de ordem material e sobretudo espiritual, que permitam a eclosão do fenômeno. Não se pode improvisar a experimentação espirítica.

(2) O material anedótico constitui experiências em primeira mão, relatadas por pessoas sinceras, de espírito crítico, mas não comprovadas; relatos autobiográficos sujeitos à mesma objeção; coleção de casos documentados, investigados por pessoas qualificadas (cientistas, escritores, professores), de que é exemplo PHANTOMS OF THE LIVING, editado por Myers e outros.

(3) Dr. Décio Rufino de Oliveira, em FENÔMENOS PARAPSICOLÓGICOS E ENERGIA CONSCIENTE.

o preconceito científico:

“... na Associação Britânica para o Progresso da Ciência, em 1876, ridicularizaram-lhe francamente o trabalho e recusaram-se a publicá-los nos Procedings da Associação... por parecerem absolutamente inacreditáveis aos cientistas os fatos que Barret relatava” – J. B. Rhine, em NOVAS FRONTEIRAS DA MENTE.

Nesse ridículo de classificarem os fenômenos de impossíveis ainda incorrem os cientistas de hoje: “Considero a PES (Percepção Extra Sensorial) um assunto intelectualmente desconfortável que chega a ser quase penoso”- Warren Weaver, matemático (citado por Arthur Koestler, em AS RAZÕES DA COINCIDÊNCIA).

Alias, o grande Helhholtz (citado por Flournoy) disse que nem o testemunho de todos os membros da Sociedade Real, nem a evidência de seus próprios sentidos poderiam convencer sequer da transmissão de pensamento, impossível que era esse fenômeno, como julgava.

Gustavo Geley, o eminente pesquisador dos fenômenos psíquicos, adverte que os sábios que se dedicam ao estudo desses fenômenos não se preparam devidamente para seu exame, como o fazem com os fenômenos físicos, motivo porque não conseguem realizá-los a seu gosto.

3. Crítica aos espíritas.

Não há pesquisa; a experimentação parou no tempo. Carência de recursos para estudos especializados. Crookes examinou os fenômenos, não formulou as leis. Bozzano e seus esforços nesse sentido. Zollner e suas teorias. O apelo de Emmanuel

Na verdade, os conceitos emitidos e episódios narrados pelos espíritas, quando defendem o caráter científico do Espiritismo, não atendem, sob o ponto de vista da Ciência, às exigências mínimas da observação e experimentação, que caracterizam a pesquisa, o método indutivo, a construção cartesiana.

Critica-se a Ciência materialista por se ater ao exame dos fenômenos físicos; no entanto, isso é natural, porque os problemas do Espírito sempre cederam lugar aos episódios, mais prosaicos, da vida terrena, concretos e contundentes.

Não é sem razão que James B. Corrant, em sua obra COMO COMPREENDER A CIÊNCIA, define-a como “a porção de conhecimento acumulativo em termos de desenvolvimento histórico”, assinalando que os velhos conceitos arraigados podem ser mantidos, a despeito de alegação de fatos em contrário, que são prejudicados em sua evidência, pois o descobrimento científico tem de corresponder à época. Assim, o conceito do flogístico, falsa idéia da combustão, que tanto entusiasmou os cientistas, dificultou a aceitação da verdade, revelada por Lavoisier.

Na pesquisa dos fenômenos psíquicos há, apenas, em verdade, alguns pioneiros, assim mesmo quanto aos fenômenos parapsicológicos ou anímicos; relativamente aos espíritas, nem mesmo os seus adeptos mais conscientes se tem dedicado a sua pesquisa uniforme e correta.

Parece que parou no tempo a experimentação espirítica, quando na própria obra do Codificador muitas proposições verdadeiras foram lançadas, desafiando o estudo dirigido de homens inteligentes, como, por exemplo, a revelação da matéria cósmica primitiva, hoje aceita pela própria Ciência, que a considera formada por partículas elementares e que lhe descobre, a cada dia, novos aspectos.

Hernani Guimarães Andrade, esforçado pesquisador psíquico, não aceita o unilateralismo materialista, que não leva em consideração a outra metade da realidade (ou a única, talvez), o Espírito, mas destaca o progresso por ele proporcionado, pois.

“Em rigor científico eliminou muita crendice, (2), muita superstição e muita imprecisão reinante na interpretação dos fenômenos da Natureza. Em sua benéfica influência saneadora reduziu consideravelmente as indevidas intromissões religiosas, nas questões de alçada exclusiva da Ciência”.

(1) Autor de A TEORIA CORPUSCULAR DO ESPÍRITO E NOVOS RUMOS À EXPERIMENTAÇÃO ESPIRÍTICA.

(2) Sabemos que, em muitos espíritas, apesar de todo o esclarecimento doutrinário à sua disposição, prevalecem ainda os sinais de velhos e retrógrados cultos e religiões.

Na verdade, os grandes cientistas que se ocuparam dos fatos espíritas provaram-nos, mas não estabeleceram as leis que os regem. Citamos, de passagem:

Willian Crookes, sábio inglês e pesquisador de grande acuidade, realizou durante os anos de 1870 a 1873, experiências, que se tornaram clássicas, com a médium extraordinária que foi Florence Cook; as mais completas do gênero, demonstraram à sociedade que os fantasmas voltam e se tornam visíveis, tangíveis e examináveis, de modo a não deixar dúvidas quanto à imortalidade do Espírito e sua possibilidade de comunicação com os vivos. (1) O Espírito Katie King deu a Crookes todas as oportunidades de exame, sério e cercado de todas as cautelas, de comprovação de sua imortalidade, mediante métodos rigorosamente científicos.

Frederico Zollner, notável físico alemão, utilizou-se, em 1877, de outro grande médium do passado, Henry Slade e, agindo como verdadeiro homem de ciência, que era, conseguiu extraordinários fenômenos de materialização (hoje se advoga o termo ectoplasmia), de transporte, de levitação e de escrita direta. Para explicar fenômenos de penetração da matéria pela matéria, imaginou uma quarta dimensão, característica dos seres que habitam o mundo invisível, ou dos Espíritos.

Willian Crawford é outro nome da Ciência, professor do Instituto Técnico e da Universidade de Belfast, que a história das pesquisas psíquicas apontará, um dia, como dos seus mais destacados e competentes cultores. A levitação de objetos foi estudada por ele com extremos cuidados e, graças aos componentes do “Círculo Goligher”, grupo de médiuns de que se destacava a senhorita Kathlen Goligher, pôde comprovar a formação de uma alavanca formada por ectoplasma – o cantilever, de que se valeriam os Espíritos para fazer levitarem objetos pesados (mesas etc.). (3)

Depois de estafantes experiências realizadas entre 1916 e 1920, Crawford, diz René Sudre, “suicidou-se no dia 30 de julho de 1920, durante um acesso de febre cerebral, devido ao esgotamento profissional e às condições criadas pela guerra”. (4).

Terminamos esta ligeira e incompleta citação de sábios, que se ocuparam com os fenômenos espíritas pelo nome glorioso de Ernesto Bozzano, em cuja autobiografia confessa: “Nunca fiz outra coisa senão estudar.”

Bozzano trabalhou, como sabemos, com a grande Eusápia Paladino, a extraordinária médium italiana, que lhe proporcionou a observação de numerosos fenômenos de efeitos físicos. É inestimável a contribuição de Ernesto Bozzano ao estudo da Ciência espírita. São numerosas as obras, todas esplêndidas, que escreveu, a respeito, muitas traduzidas para o Português: FENÔMENOS DE TRANSPORTE, A CRISE DA MORTE, FENÔMENOS PSÍQUICOS, PENSAMENTO E VONTADE, ENIGMAS DA PSICOMETRIA, XENOGLOSSIA, ANIMISMO OU ESPIRITISMO?, METAPSÍQUICA HUMANA, COMUNICAÇÃO MEDIÚNICAS ENTRE VIVOS, MATERIALIZAÇÕES DE ESPÍRITOS etc.

(1) FATOS ESPÍRITAS, editado pela FEB

(2) PROVAS CIENTÍFICAS DA SOBREVIVÊNCIA, Edicel, SP

(3) MECÂNICA PÍQUICA, Lake, SP

(4) V. Introdução, de MECÂNICA PSÍQUICA

O que desejamos, porém, destacar nesta sumária exposição, é o esforço do Professor Ernesto Bozzano no sentido de estabelecer princípios e leis capazes de explicar os fenômenos que observava e estudava, esforço tanto mais louvável quão mais difíceis eram as condições de pesquisa na sua época, comparada com a atual, ainda assim praticamente fechada aos cientistas espiritualistas.

Sempre defendendo a hipótese espírita para explicação dos fenômenos, ele procurava também ilações, conclusões, que a observação e a experimentação possam trazer para dar o necessário cunho de veracidade às manifestações. Contesta, em termos de ciência, a teoria da quarta dimensão, do Prof. Zollner, contrapondo-a à da passagem da matéria pela matéria, que julga ser a verdadeira. (1).

As pesquisas devem continuar, a todo custo e a contribuição dos espíritas, com a necessária capacitação, é da maior valia.

Terminemos este capítulo, com as palavras, como sempre sensatas e superiores, de Emmanuel:

“A Ciência investiga, a Religião crê. Se não é justo que a Ciência imponha diretrizes à Religião, incompatíveis com as suas necessidades de sentimento, não é razoável que a Religião obrigue a Ciência à adoção de normas inconciliáveis com as suas exigências do raciocínio” – SEGUE-ME, obra psicografada por F. Cândido Xavier (Editora O CLARIM). Assim, ainda nas palavras de Emmanuel. (2).

“... necessitamos de operar ativamente para que a Ciência descubra, nos próprios planos físicos, as afirmações da espiritualidade”.

Do contrário, não nos tomarão a sério.

(1) Sugestivo é o episódio da pirite, que o Espírito desmaterializou, transportou para a sala de reunião, mas não pôde tornar material, de novo, ou melhor, reintegrar as partículas caindo a pirite, em forma de pó finíssimo, sobre os presentes. V. FENÔMENOS DE TRANSPORTE, Edição Calvário

(2) “EMMANUEL”, psicografia de F. C. Xavier, 7ª edição FEB, pág. 180.

4. A contribuição de Richet.

A “criptestesia espíritica”, A Parapsicologia, de Rhine até hoje.

Os físicos e sua contribuição ao estudo dos fenômenos extra-físicos (anímicos).

Charles Richet (1) dedicou muitas das páginas de seu alentado TRATADO DE METAPSIQUICA ao estudo do que ele chamou de criptestesia espíritica, sem no entanto perder a oportunidade de sempre se expressar mordazmente com relação ao Espiritismo e aos seus adeptos:

“Os espíritas receberam o meu TRATADO de METAPSIQUICA com grande frieza. Compreendo o seu estado de espírito. Em vez de aceitar a sua teoria ingênua e frágil...” – Prefacio da 2ª edição portuguesa (O grifo é nosso).

“Os espíritas quiseram misturar a ciência com a religião, o que redundou em grande detrimento para a ciência” – pág. 32.

“É um erro bem grave construir uma doutrina com a palavra dos tais espíritos, que são pobres espíritos” – pág. 54.

“Se bem que a criptestesia, em todas essas experiências da Sra. Piper (2), seja absolutamente e irrepreensivelmente demonstrada, a sobrevivência, na realidade, não o é”.- página 207 (Grifamos).

É verdade que incluiu, nos períodos em que dividiu e classificou os acontecimentos e os fatos do Espírito e suas descobertas, o período espirítico, (das irmãs Fox a Willian Crookes) e o científico 9que começa com o próprio Crookes). Suas conclusões com relação à criptestesia experimental (ou espírita) são desanimadoras, entretanto, pois, quanto aos fenômenos observados, afirma que, neles, “...é pouco racional fazer intervir os mortos”- pág. 307.

E prossegue:

“Quaisquer que sejam as surpreendentes respostas de George Pelham (3), a hipóteses de sua sobrevivência é muito frágil” – pág. 316.

“Pois bem! A doutrina de sobrevivência parece-me cheia de impossibilidades, enquanto a outra hipótese, a da “criptestesia intensa é (relativamente) tão fácil de admitir, que não hesito entre as duas” – pág. 317.

“Um dia virá, talvez, quando elas encontrarão alguma explicação, mas provisoriamente não iremos até a hipótese de uma sobrevivência, absolutamente indemonstrada e quase indemonstrável” – pág. 325

“A criptestesia, faculdade extraordinária, supranormal, de conhecimentos, é um fato. A sobrevivência da consciência dos mortos não é senão uma hipótese” – pág. 327 (Grifamos).

Apesar de em sua obre TRATADO DE METAPSIQUICA negar autonomia aos fenômenos mediúnicos e mesmo classificar como indemonstrada e indemonstrável a sobrevivência do Espírito, Richet é um dos nomes imortais da pesquisa psiquica e, em carta que, em 1936 escreveu a Bozzano, rendeu-se à evidência da verdade espírita.

(1) Eminente fisiologista francês, nascido em 1850, dedicou-se às pesquisas psíquicas e nesse ramo deixou obras notáveis, como o TRATADO DE METAPSÍQUICA, O SEXTO SENTIDO, A GRANDE ESPERANÇA.

(2) Leonora E. de Piper, médium norte-americana, desencarnada em 1950, realizou inúmeras sessões de identificação de espíritos, com Hodgson, Lodge, etc.

(3) Jovem advogado e escritor, desencarnado em 1882, de violenta queda, que, através de Madame Piper deu maravilhosas provas de sua identidade.

A Parapsicologia, de Rhine até hoje.

A Parapsicologia, ao contrário da Metapsíquica, que admitia uma criptestesia espíritica, rol de fatos mediúnicos, cuida apenas de fenômenos anímicos e tem despertado maior interesse, senão da própria Ciência, pelo menos de muitos cientistas famosos. Já é bastante, pois que admite a existência do não-físico, da mente, pois, de fato, uma ciência mecanicista, que não quer ouvir falar de princípio espiritual, dificilmente cederá, para aceitar as verdades da Doutrina Espírita, concernentes à sobrevivência da alma e sua comunicação após morte.

A ciência pontificou, considerando a mente entrosada nos órgãos sensoriais e estes, por sua vez, no mecanismo orgânico, que “nada penetra na mente a não ser através dos sentidos”, ou melhor, tudo quanto a mente registra já foi registrado pelos sentidos. Entretanto, aceitando a Parapsicologia, aceita a existência de fenômenos extra-físicos, como a telepatia, a clarividência, a cognição e mesmo a psicocinesia, o que põe por terra o referido postulado.

De qualquer forma a discussão foi iniciada e continuam, pelo menos extra-oficialmente, as experiências, devendo-se ao prof. Joseph Bankes Rhine e à sua equipe, o esforço valioso para estabelecer uma investigação em termos de método e rigor científicos (o estatístico, com base no cálculo das probabilidades etc.) fenômenos paranormais.

Há sempre um pioneiro, que desbrava o terreno e encoraja, enfrentando toda sorte de entraves. Rhine enfrentou o enfrenta a incompreensão de seus colegas e paga seu tributo ao progresso, pois, segundo o matemático Warren Weaver, a PES é um desconforto intelectual quase penoso.

Artigo publicado em ESTUDOS PSIQUICOS (outubro de 1967) e assinado por Demócrito, na seção Cantinho da Ciência, diz que a PARAPSICOLOGIA é importante marco no estudo e pesquisa da alma e de seus fenômenos grandiosos, porque:

  1. fez-se ouvir e acertar no mundo da Ciência;
  2. representa a base sobre que vão assentar as futuras investigações científicas;
  3. marca a abertura de um caminho revolucionário em Ciência, pois o homem pode aperceber-se da realidade sem ser pelos sentidos físicos conhecidos, de que os fenômenos se dão independentemente do tempo e do espaço e ainda de que a psique pode influenciar diretamente a matéria e também que os fenômenos psíquicos não obedecem às leis físicas.

Aliás, parece que hoje a tendência será para não considerar-se com muito rigor, mesmo em sentido pejorativo, a palavra matéria, em contraposição ao Espírito, pois já se fala em matéria psi... Não seria mais certo matéria física, matéria fluídica, matéria astral, matéria mental, matéria elementar? (1).

Obras recentes (2), relatam experiências notáveis realizadas nos países da órbita comunista, que hoje intensificam as pesquisas parapsicológicas, procurando, todavia, lhes dar sempre um cunho materialista ao contrário dos pesquisadores norte-americanos, que lhes reconhece até certo ponto o caráter extra-físico.

Os livros em exame nos falam de grandes pesquisadores como Eduardo Naumov, biologista russo, sem esquecer o pioneiro Leonid Vasiliev e de sensitivos extraordinários, como Karl Nikolaiev e Yuri Kamensky, telepatas, predecessores do famoso Wolf Messing, que esteve no Brasil. Testes clássicos foram realizados, comprovando o extraordinário poder do pensamento demonstrado em fenômenos de PK (psicocinesia), efetuados com a sensitiva Nelya Mikhailova (3). Entretanto, afiançam os russos que o fenômeno é puramente físico-fisiológico. Rosa Kuleshova vê as cores com as pontas dos dedos, em fenômeno crismado como “visão dermo-ótica”. As experiências comprovaram velhas afirmações esotéricas, sobre as cores, que são frias ou quentes, macia ou ásperas, pegajosas ou escorregadias etc. O “efeito Kirlian”, que veio confirmar, cientificamente, ensinos espiritualistas antigos, e minuciosamente descrito, mostrando um corpo energético, crismado de corpo bioplasmático, de qualidades e características extraordinárias.

Na Bulgária, o Dr. Georgi Lazanov, notável pesquisador dos fenômenos parapsicológicos, é positivo em suas convicções, quando diz, a respeito, que tudo pode ser explicado cientificamente, pelo que se utiliza, também, de aparelhos eletrônicos nas pesquisas.

Na Tchecoslovaquia trocaram o nome de Parapsicologia para Psicotrônica e seu grande adepto é o Dr. Zdenek Rejdak, que considera o psi como forma de energia dos organismos vivos.

(1) Pergunta 61 de O LIVRO DOS ESPIRITOS: “Há alguma diferença entre matéria dos corpos orgânicos e a dos inorgânicos”? R. “A matéria é sempre a mesma, mas nos corpos orgânicos está animalizada”.

(2) “Veja-se PARAPSICOLOGIA, SEGREDO DOS RUSSOS, editado por Martin Ebon e EXPERIÊNCIAS PSIQUICAS ALÉM DA CORTINA DE FERRO, de Sheila Ostrander e Lynn Schoeder.

(3) Seu verdadeiro nome é Ninel Kulagina.

Os físicos e sua contribuição ao estudo dos fenômenos extrafísicos (anímicos).

Sucedem-se os congressos de Parapsicologia e seus resultados nada acrescentam ao conhecimento dos fenômenos paranormais, entre eles os espíritas ou mediúnicos, mesmo por que, quanto a estes, em particular, os trabalhos de pesquisa pouco ou nada têm progredido. Cumpre destacar, entretanto, o trabalho de pessoas ou grupos isolados, a respeito, por exemplo, da reencarnação, objeto de acuradas pesquisas, pelo método da memória extra-cerebral, por parte do Dr. Ian Stevenson (1).

Não podemos, portanto, desprezar o esforço de pesquisadores isolados ou de grupos que, embora com muita dificuldade, procuram nos trazer, com rigores do método científico, o conhecimento desses fenômenos, de magna importância para a Humanidade.

Em “AS RAZÕES DA COINCIDÊNCIA”, Arthur Koestler assinala que “os inconcebíveis fenômenos da percepção extra sensorial parecem de certo modo menos absurdos, comparados aos inconcebíveis fenômenos da física”, querendo demonstrar, assim, que os físicos já admitem fatos capazes de violarem todas as leis estabelecidas pela Ciência com relação aos postulados materialistas, que têm defendido até aqui. A PES não poderia existir por contraditar as leis da física, entretanto, a Ciência não conhece a natureza do átomo, mas constrói seus sistemas sobre ele e não nega a existência dos genes, embora sejam “invisíveis aos melhores instrumentos óticos de aumento” (2).

Afirma o Prof. J. Herculano Pires, em sua obra “PARAPSICOLOGIA, HOJE E AMANHÔ, 4ª edição, EDICEL, SP, que “A descoberta progressiva da anti-matéria, a partir dos idos de 1930 – justamente quando nascia a Parapsicologia na Universidade de Duke – levou os físicos de todo o mundo à descoberta do espírito”.

Um famoso astrônomo exclama: “A matéria-prima do Universo é o espírito” – “A NATUREZA DO MUNDO FÍSICO”, Sir Arthur Eddington.

Os físicos já não acham tão impossíveis assim, pelo menos os fenômenos parapsicológicos, depois de se verem compelidos a aceitar a existência de anti-partículas (anti-eletros) formando anti-matéria; de se verem à frente de novos conceitos revolucionários, como da reversão do tempo, de Feynman, Prêmio Nobel de Física em 1965. O fabuloso neutrino, previsto por Wolfgang Pauli e capturado em laboratório, virtualmente não tem propriedades físicas de massa, carga elétrica ou campo magnético, no entanto, um deles poderia atravessar o corpo sólido da Terra, o que deixa a Ciência perplexa, com a derrogação de suas leis (3).

Um dia, estamos certo, ela proclamará a realidade do Espírito e de todos os fenômenos que lhe são próprios.

(1) ‘VINTE CASOS SUGESTIVOS DE REENCARNAÇÃO”

(2) “PALINGÊNESE, A GRANDE LEI”, do Dr. Jorge Andréa

(3) Sobre o fascinante assunto das modernas e revolucionárias concepções da Física, quando “Todo um coro laureado do Prêmio Nobel ergue sua voz para nos anunciar a morte da matéria, a morte da causalidade, a morte do determinismo”, além de “AS RAZÕES DA COINCIDÊNCIA”, leia-se, também, ´O ESPIRITISMO EM FACE DA CIÊNCIA DOS NOSSO DIAS”, de Jethro Vaz de Toledo, Edicel, SP.

5. CONCLUSÕES

I – O Espiritismo é ciência, por definição e essência ou conteúdo. Entretanto

“Ciência ainda não é, porque não equacionou as leis que regem a fenomenologia mediúnica, controlada, por enquanto, pelos experimentadores do Além. No futuro, sim, quando as leis que presidem aos fenômenos mediúnicos nos forem reveladas...” – Dr. R. Penna Ribas, médico e Presidente da Sociedade de Estudos e Pesquisas Espíritas, in artigo publicado em O JORNAL, de 19.07.1970.

II – Os fenômenos mediúnicos são concretos e podem ser observados e estudados, mesmo com as cautelas que a Ciência exige. Entretanto,

“A visão panorâmica do aparelho mental sugere a extrema complexidade do fenômeno mediúnico”.

“Evidentemente, Não podemos Ter qualquer ilusão no que tange aos fatos mediúnicos.

Estamos longe de conhecer as leis fundamentais que vigem nesse setor de pesquisas” – Dr. Jayme Cerviño, médico, espírita, professor de Biologia, in “ALÉM DO INCONSCIENTE”, Edição da FEB.

“Compreendemos a necessidade de definir o fenômeno mediúnico dentro da ciência. Não será obra dos dias atuais”.

“Os fatos estão comprovados (existência e vivência), porém o mecanismo estrutural desses fatos continua no setor das hipóteses”.

“A mediunidade é fenômeno inconteste, desenvolvido na esfera psíquica, ainda bem pouco compreendido pela ciência hodierna” – Dr. Jorge Andréa, médico e Professor do Instituto de Cultura Espírita do Brasil, in “NOS ALICERCES DO INCONSCIENTE”.

“A Codificação Espírita, no que concerne ao estudo dos fenômenos mediúnicos, peca apenas pela falta de estrutura científica...” “Ao dizermos que a Codificação carece de estrutura científica, longe de nós afirmarmos que Kardec esteja superado ou que haja erros e contradições no seu conteúdo. Pelo contrário, o que afirmamos é que, sendo a doutrina exposta pelo didata lionês em um curto espaço de tempo e trazida a ele por comunicações espirituais, não teve condições de esquematizar uma estrutura nos moldes científicos” – Dr. Carlos de Brito Imbassahy, engenheiro, Professor do Instituto de Cultura Espírita do Brasil, in Domínio Físico dos Fenômenos Mediúnicos”, artigos publicados na Revista Internacional de Espiritismo, julho e agosto de 1973.

III – Os fenômenos anímicos, por serem de mais fácil observação e estudo, já constituem objeto de pesquisa científica, sob a denominação de PARAPSICOLOGIA, PSICOTRÔNICA E OUTRAS. Ainda assim, há relutância em considerá-los como produzidos pelo Espírito, principalmente em certos países, como a Rússia, a Bulgária etc.

IV – Será atitude de coerência e muito louvável, que os espíritas – que muito justamente destacam o aspecto científico da Doutrina, como da maior importância na sua difusão e como elemento de comprovação dos próprios postulados ético-filosóficos, se organizassem para a pesquisa, em laboratório, dos fenômenos mediúnicos, assim entendidos os oriundos de Espíritos desencarnados (fantasmas), a fim de equacionar as leis que os regem. Afinal, não se pode impor a ninguém, como ciência, uma Doutrina que, nesse particular, não esteja ainda estruturada.

Revista Internacional de Espiritismo – nº 04 – Maio de 1977