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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Os caçadores de cabeça

Conflito étnico faz ressurgir na
Indonésia uma terrível tradição

Cristiano Dias

AFP

Dayaks com o troféu de guerra: como nos tempos antigos, mas por motivo moderno

Caçadores de cabeça já não deveriam existir, exceto como referências nos livros de antropologia – mas essa selvageria, que o mundo moderno e globalizado parecia ter enterrado, voltou a acontecer na Indonésia. Na Ilha de Bornéu, os dayaks, um grupo étnico malaio, estão decapitando os madureses, migrantes da ilha de Madura, que vivem há quatro décadas na região. Bandos armados com lanças percorrem os vilarejos, capturam alguém e cortam sua cabeça com um golpe de facão. O assassino bebe o sangue que escorre do pescoço da vítima e retira o coração para que o resto do bando possa comê-lo. Cabeças são espetadas em pedaços de pau e expostas à beira dos caminhos. A barbárie começou há três semanas e já matou mais de 1.000 pessoas – quase 150 degoladas – e fez com que 80.000 madureses abandonassem suas casas em busca da proteção do Exército e outros 20.000 saíssem de Bornéu. Explosões similares ocorreram em 1997 e 1999, quando 3.000 pessoas, a maioria madureses, foram mortas. Antropólogos e historiadores estão pasmos com a revelação contida nesses episódios de violência: os caçadores de cabeça estão de volta à Ilha de Bornéu.

A decapitação e a tomada de cabeça como troféu são uma prática ritual observada em vários lugares desde a Idade da Pedra. Na América do Sul, os índios jivaros, que vivem nos Andes equatorianos e peruanos, são famosos pela habilidade com que reduziam a cabeça de seus inimigos ao tamanho de uma laranja. Os caçadores de cabeça eram comuns em várias ilhas do arquipélago indonésio, especialmente entre os povos do interior. Em Bornéu, o costume foi corrente até 1894, quando os colonizadores holandeses conseguiram convencer os dayaks a substituir cabeça humana por coco e cabeça de animais. "O guerreiro que corta a cabeça de uma pessoa adquire o poder espiritual da vítima e eleva seu status na tribo", disse a VEJA o americano William Cummings, antropólogo e historiador da Universidade South Florida e especialista em etnologia indonésia. "Os dayaks depositam comida e tabaco perto dos crânios para em troca ficar livres de doenças e obter uma boa colheita."

AFP

Em fuga: madureses aterrorizados recebem comida e fazem fila para deixar Bornéu

O conflito atual é conseqüência de uma política desastrosa da década de 60, quando o general Suharto, ditador da Indonésia, tentou forjar uma identidade nacional. Seu maior desafio era vencer os contrastes culturais do arquipélago de 17.000 ilhas, espalhadas por mais de 4.000 quilômetros, entre os oceanos Índico e Pacífico. O país é um mosaico de 300 grupos étnicos que falam cerca de 450 línguas diferentes. Para manter unido esse universo diversificado, Suharto colocou em prática um projeto migratório. Ao mesmo tempo que mesclaria etnias e forjaria uma identidade nacional, aliviaria a tensão populacional de ilhas superpovoadas, como Madura e Java. As coisas funcionaram bem até a queda do ditador, em 1998. A partir daí, ficou a certeza de que era Suharto quem mantinha, com mão pesada, a unidade indonésia. Sem ele, o país vem cambaleando rumo à desintegração política (veja mapa).

A violência detonada agora em Bornéu surgiu do projeto de imigração que se tornou uma bomba de efeito retardado. Vindos de Madura, uma ilha a 600 quilômetros de distância, os migrantes instalaram-se em Bornéu para se misturar com os dayaks. Mas, em vez de integração, o que se viu foi segregação. Os madureses conquistaram os melhores empregos e compraram as terras mais férteis, enquanto os dayaks e outros grupos malaios, que representam 40% da população, foram relegados aos bolsões de pobreza nas periferias das cidades. Chineses étnicos, donos da maior parte das riquezas, são 12% dos habitantes, e os madureses, 8%. Há 2 milhões de dayaks, na maioria cristãos. "Não se trata de decapitações como eram os rituais antigos", observa John Bamba, diretor do Instituto de Estudos dos Dayaks da Universidade de Pontianak, em Bornéu. "O que está acontecendo agora é mais uma expressão de ódio e ressentimento."

AP

Dayaks, com lanças e facões: mais de 1 000 mortos em três semanas de conflito

Nem de longe os assassinos se parecem com os antigos guerreiros tribais. São jovens criados com antenas parabólicas, calças jeans e tênis. Impressiona como a rivalidade étnica levou essa nova geração a ressuscitar a terrível tradição. Talvez a mutilação dos corpos seja, sobretudo, uma estratégia para aterrorizar os madureses. Na fuga, muitos contam relatos horrendos de guerreiros dayaks com as cabeças cortadas nas mãos. Mas o fato é que a decapitação é um componente fundamental na cultura dayak, que aflorou em um momento de crise. Em períodos de extrema tensão, a tendência é que a violência tribal seja revivida. É o mesmo padrão dos cruentos assassinatos em massa acontecidos na Guerra da Bósnia e durante o genocídio de Ruanda, quando pessoas foram completamente mutiladas, decapitadas e desvisceradas. "A lição de tudo isso, para nós, talvez seja que o potencial de violência aterrorizante e barbarismo esteja bem abaixo da superfície. Afinal de contas, há ocasiões em que pessoas, na sociedade moderna, fazem coisas tão chocantes quanto essas tribos", diz o antropólogo Cummings. "Talvez nos console o fato de pensar que nós progredimos na direção de um alto estágio de civilização. Mas não tenho certeza se essa visão é correta."

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