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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O perigo do fanatismo

Jaime Leitão

Todo fanático é cego. Isso porque o seu olhar é dirigido só para um ponto e, geralmente, de forma distorcida. Esse ponto de interesse acaba sugando o indivíduo, impedindo-o de viver novas experiências. Ele segue uma única rota e é capaz de morrer por ela. E leva ao naufrágio quem estiver próximo ao seu barco e entrar nele sem refletir sobre a insanidade que isso representa.
Dois fatos assustadores revelam o que o fanatismo é capaz de fazer. Uma mulher, que se dizia cristã fervorosa, a missionária Cláudia Simião da Silva, de 35 anos, obrigou duas sobrinhas, a irmã e a sogra a permanecer com ela, em sua casa, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, trancadas durante dois meses, fazendo jejum e esperando o 'enviado divino', que as tiraria da miséria, levando-as para morar em um apartamento confortável, na Zona Sul do Rio de Janeiro: em Copacabana, Leblon, Ipanema.
Resultado: Cláudia morreu de inanição, e as pessoas que se encontravam com ela foram internadas esta semana com um quadro grave de desnutrição, devendo permanecer cerca de um mês no hospital. O que a miséria faz. Estimula crenças de salvação, que acabam levando à doença e à morte.
Durante o período de cativeiro, as prisioneiras participavam de 'cursos bíblicos', ministrados por Cláudia. Elas escaparam da casa já em pele e osso e, segundo os enfermeiros do hospital, pareciam "aquelas crianças de Biafra", mais esqueletos que pessoas. Quando elas saíram da casa, Cláudia foi encontrada já em decomposição, pois havia morrido cinco dias antes.
Outro caso espantoso e que vem causando comoção está ocorrendo na Rússia. Membros de uma seita fanática levaram vinte e nove seguidores, inclusive crianças, para uma caverna gelada naquele país, com alimentos em quantidade suficiente para agüentar até maio do ano que vem, quando, segundo eles, o mundo acabará e eles serão salvos. Diante da ameaça das autoridades de tirá-los de lá, os líderes ameaçam suicídio coletivo, fato que já ocorreu em outras épocas com seitas fanáticas e apocalípticas.
Respeito todas as religiões, só não posso aceitar que 'malucos' induzam outras pessoas a cometer desatinos. O fanatismo é uma demonstração de desequilíbrio. O pior é que os fanáticos geralmente têm carisma e levam muita gente para o buraco, utilizando o discurso de que estão conduzindo todos ao paraíso.
Os fanáticos berram, ameaçam, transitam na dimensão da loucura e não vêem a realidade que já está desconectada de suas vidas. Se não houvesse fanáticos - políticos e religiosos - milhões de vidas teriam sido preservadas no mundo. O fanatismo é uma doença incurável e contagiante.
E em momentos de crise e de miséria, eles prosperam muito mais porque assumem a condição de salvadores, donos de uma verdade inventada por suas mentes enlouquecidas.

Jaime Leitão, Jaime Leitão é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação.

Texto publicado em 2007-11-17

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