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terça-feira, 14 de julho de 2009

A invenção do Oriente Médio

A invenção do Oriente Médio
Israelenses lutam contra palestinos. Xiitas se opõem a sunitas. Radicais muçulmanos organizam ataques terroristas. Para entender o maior barril de pólvora do mundo, é preciso conhecer a história do local
por Eduardo Szklarz

Em 7 de outubro de 2001, menos de um mês após os ataques terroristas aos Estados Unidos, a rede de TV árabe Al Jazeera transmitiu um vídeo de Osama bin Laden. Nele, o chefe da rede Al Qaeda falava da "humilhação" que o Islã havia sofrido durante "mais de 80 anos". O líder radical referia-se ao fato de, em 1918, o Império Turco-Otomano – a última grande potência muçulmana – ter sido derrotado pelos europeus. Sua capital Constantinopla foi tomada e a maior parte das terras, conquistadas por Maomé a partir do século 7, divididas em territórios com fronteiras novas e nomes inspirados em regiões da Antiguidade cujos limites não correspondiam ao novo traçado. Dois deles, chamados de Iraque e Palestina (hoje Israel, Jordânia e Cisjordânia), ficaram sob domínio britânico. Já o terceiro, que recebeu o nome de Síria (atuais Síria e Líbano), coube aos franceses. Pior: quatro anos depois, o califado, símbolo da unidade política do Islã por 13 séculos, cedia lugar a estados-nações com leis e costumes importados do Ocidente.

Bin Laden não é o único que usa os ressentimentos do passado para justificar ações presentes. No Oriente Médio, batalhas e heróis de séculos (ou milênios) atrás continuam reverberando no discurso dos líderes atuais para mobilizar as massas. Judeus até hoje celebram a conquista de Jerusalém por Davi, há 3 mil anos, e a unificação do antigo reino de Israel. Hassan Nassralah, chefe do Hezbollah, gosta de se comparar ao líder curdo Saladino, que em 1187 liderou a vitória dos muçulmanos sobre os cruzados na Terra Santa. O dirigente iraquiano Saddam Hussein dizia-se herdeiro do rei babilônico Nabucodonosor e de Saladino – embora Saddam tenha matado milhares de curdos nos anos 80.

A simbologia do passado é tão forte no Oriente Médio que as disputas nacionais acabam assumindo caráter religioso. Foi assim com o conflito entre israelenses e palestinos, que começou no início do século 20 como uma luta por terras e acabou atraindo radicais religiosos dos dois lados. É assim no Iraque, onde milícias armadas revivem hoje o conflito instaurado pelo cisma entre sunitas e xiitas nos primórdios do Islã.

É fato que os interesses petroleiros também ajudam a explicar as tensões no Oriente Médio. Mas a região só se tornou um dos pontos mais inflamáveis do mundo graças à constante mescla entre religião e política, entre passado e presente. Portanto, para entender o que ocorre lá hoje, é preciso voltar no tempo. Pelo menos 5 mil anos atrás.

PRIMEIROS HABITANTES

O mapa do Oriente Médio que vemos hoje é apenas o mais recente capítulo de uma longa saga. Desde 3 mil a.C., essa faixa de terra na encruzilhada da Europa, Ásia e África foi dominada – em maior ou menor escala – por diversos reinos e impérios, em conquistas não-lineares. Entre eles, os egípcios (a partir de 2500 a.C.), hititas (por volta de 1500 a.C.), israelitas (século 10 a.C.), assírios (século 8 a.C.), babilônios (século 7 a.C.), persas (século 6 a.C.), macedônios (século 4 a.C.), romanos (século 1), bizantinos (século 5), sassânidas e califado islâmico (século 7), seljúcidas, cruzados e muçulmanos liderados por Saladino (século 12), império mongol (século 13), império otomano (século 16) e potências ocidentais, no início do século 20.

A maioria desses povos não existe mais. A civilização dos faraós, por exemplo, nada tinha a ver com os árabes que hoje habitam o Egito. Adorava outros deuses, falava outra língua e utilizava diferentes formas de escrita. Cananeus, israelitas, fenícios e filisteus também já viviam no Oriente Médio milhares de anos antes do advento do Islã. Eles habitavam a parte ocidental do chamado Crescente Fértil (hoje, os territórios de Israel, Líbano e Cisjordânia). Por volta do século 13 a.C., os israelitas conquistaram Canaã, ao sul do Crescente, onde viviam cananeus e jebuseus, entre outros, e formaram um reino ao norte (Israel) e outro ao sul (Judá), que 300 anos depois seriam unificados pelo rei Davi, tendo Jerusalém como capital. Enfraquecido por disputas internas, o reino de Israel foi conquistado por Nabucodonosor, rei da Babilônia, em 586 a.C. Os judeus foram exilados.

Outros povos tiveram pior sorte. "Os filisteus desapareceram durante as conquistas babilônicas; já os fenícios permaneceram na costa do Mediterrâneo até a época romana [século 1]", diz o historiador Bernard Lewis, da Universidade de Princeton, no livro "O Oriente Médio". Outro povo que sumiu foram os nabateus, rica civilização semita que fez sua capital na cidade de Petra, na atual Jordânia. Os sumérios, acádios e assírios, que habitaram a Mesopotâmia (entre os rios Tigre e Eufrates), entraram em declínio com a avalanche de impérios e batalhas.

A partir do século 3, o Oriente Médio virou palco de sangrentos embates entre as duas principais potências da época: Pérsia e Roma. Até então, o cristianismo não tinha papel importante. "No início, os seguidores de Jesus foram uma seita perseguida. Mas com a conversão do imperador Constantino, no século 4, o cristianismo se tornou a religião oficial de Roma", diz o pesquisador americano Michael Hart. Foi quando a situação começou a mudar.

No século 5, o Império Romano do Ocidente sucumbiu ante as invasões bárbaras à Europa, mas o Império Romano do Oriente, mais conhecido como Bizantino, ainda se manteria por mil anos. Constantino havia feito sua capital em Bizâncio, rebatizada de Constantinopla (atual Istambul). Embora falassem grego, os bizantinos se consideravam romanos e levaram adiante as guerras contra os persas. Em 637, quando persas e bizantinos estavam exaustos de lutar, o Oriente Médio caiu na mira de uma nova potência: o Islã, fundado pelo profeta Maomé.

A REGIÃO SOB O ISLÃ

"Os exércitos de Maomé partiram da Arábia e avançaram sobre o Oriente Médio, África, Europa, Índia e China ao mesmo tempo, aliando a vanguarda da ciência ao maior poderio militar da Terra", diz Lewis. Maomé chegou com uma novidade em relação aos líderes cristãos: foi ao mesmo tempo líder político e religioso. "Ao longo da história cristã, Igreja e Estado desenvolveram hierarquias diferentes. As duas podem estar unidas ou, em tempos modernos, separadas. Mas, na sociedade concebida por Maomé, nunca foi criada uma instituição semelhante à Igreja", diz Lewis. "Não há no Islã a distinção entre a lei da mesquita e a lei do Estado. Há apenas uma única lei, a sharia, que regula todos os aspectos da vida humana." Com a morte de Maomé, em 632, a comunidade islâmica se dividiu sobre quem seria seu primeiro sucessor – o califa. A maioria apoiou a escolha de Abu Bakr, companheiro e sogro de Maomé. Outros desaprovaram essa decisão, dizendo que a única liderança legítima era a que vinha da linhagem do primo e genro do profeta, Ali. Os partidários de Bakr ficaram conhecidos como sunitas, enquanto os de Ali foram chamados de xiitas. "Sunita" vem da palavra árabe sunnah, que se refere às palavras e ao exemplo do profeta Maomé. Já "xiita" vem de shia, ou seguidor (de Ali). Esse cisma até hoje gera conflitos na região.

Certo é que os primeiros califas foram árabes e muçulmanos – isto é, faziam parte do povo árabe e seguiam a fé islâmica. (Muita gente hoje confunde "árabe" com "muçulmano", embora apenas 30% dos muçulmanos sejam árabes.) Nos séculos seguintes, o poder do califado foi exercido por dinastias diversas, como a dos omíadas (sediados em Damasco) e abássidas (com sede em Bagdá). Mas, apesar dessa diversidade, o califado se manteve como símbolo maior da unidade do Islã. Por vezes, essa unidade era ameaçada. Em 1096, por exemplo, o papa Urbano II resolveu dar um basta ao domínio muçulmano na Terra Santa e enviou a primeira de uma série de expedições – as Cruzadas – para reconquistá-la. Foi um banho de sangue. "Cabeças, mãos e pés se amontoavam nas ruas de Jerusalém", escreveu Raymond de Aguiles, cristão e testemunha da matança. Os cruzados expulsaram os judeus da cidade e transformaram as mesquitas em igrejas, baita humilhação aos muçulmanos. Mas o reino cruzado durou pouco. Os muçulmanos se reorganizaram em torno do general Saladino, que em 1187 entrou triunfante em Jerusalém, aceitou a rendição dos cristãos e permitiu a volta dos judeus. Detalhe: Saladino era curdo, não árabe. Sinal de que o poder estava mudando de mãos no Oriente Médio. Pouco depois, a região passou ao domínio dos mongóis, que com o tempo se converteram ao Islã.

A mudança maior ocorreu no século 15 com a formação de um novo império muçulmano: o dos turcosotomanos, que tomaram Constantinopla em 1453 e ampliaram seus domínios até a África e a Europa. "Os sultões otomanos se proclamaram califas, embora fossem turcos, não árabes. Tampouco eram descendentes de Maomé", diz o historiador inglês Christopher Catherwood, da Universidade de Cambridge. "Mas, com o sucesso de seu superestado, poucos muçulmanos contestariam a autoridade islâmica da nova dinastia dos califas. O orgulho muçulmano foi revigorado com a supremacia." Resultado: durante quase mil anos – entre o declínio do Império Romano e o advento da modernidade – o Islã esteve na dianteira do progresso humano. Era a principal potência econômica e comercial do planeta, vanguarda nas artes e nas ciências. Mas, de repente, a balança se inverteu. Os europeus promoveram o Renascimento e recuperaram o atraso científico. No século 16, Espanha, Portugal, Áustria e Rússia haviam ganhado sucessivas batalhas contra os exércitos de Alá. Em fins do século 17, o Islã era uma força em retirada e seus líderes se sentiam ameaçados pelos impérios ocidentais. Mais: o Ocidente renovou seus valores com a Revolução Francesa e promoveu a Revolução Industrial, enquanto o Islã, numa inversão do curso, parecia estagnado.

Em 1798, o francês Napoleão Bonaparte entrou no Egito e, pela primeira vez, submeteu os centros vitais do Islã ao domínio de uma potência ocidental. Com o Império Otomano tremendo nas bases, a situação das minorias religiosas piorou muito. Até então, judeus e cristãos (reconhecidos como "povos do livro") podiam seguir suas tradições desde que respeitassem as autoridades e pagassem impostos. Eram cidadãos de segunda classe – por exemplo, nunca podiam testemunhar num julgamento contra um muçulmano –, mas podiam contar com a proteção do califa. "Com a crise do Império Otomano, ficou difícil manter a tolerância baseada na superioridade religiosa. As minorias não-muçulmanas passaram a ser vistas como agentes das mudanças", diz Lewis. À medida que a situação piorava, crescia a influência do partido Jovens Turcos, que buscava modernizar o país. Em 1913, a facção extremista do partido derrubou o sultão Abdul Hamid II e instaurou um regime para acabar com a diversidade do império. No jargão dos extremistas, essa idéia era chamada de "panturquismo" – e significava a exclusão de todas as minorias.

Esse nacionalismo era uma novidade e tanto na história dos impérios muçulmanos. Até então, não importava se seus integrantes fossem árabes, persas, curdos: o importante era que fossem muçulmanos. Agora, os manda-chuvas declaravam que mais importante era ser turco. Um tiro que sairia pela culatra. Fronteiras pós-guerra Quando estourou a Primeira Guerra, em 1914, a maioria dos árabes manteve-se leal ao Império Otomano. "Os curdos também tomaram o seu lado e, estimulados pelos otomanos, massacraram centenas de milhares de armênios cristãos", diz Catherwood. Na Europa, franceses, ingleses e russos se aliaram contra o expansionismo alemão. Os Jovens Turcos decidiram lutar do lado da Alemanha. Ingleses começaram a treinar tribos árabes de dentro do próprio Império Otomano contra os turcos usando táticas de guerrilha. Figura famosa da época foi T.E. Lawrence, soldado e arqueólogo inglês que teria liderado a Revolta Árabe (1916-18) contra os turcos. Ele ficou tão famoso que mereceu um filme – Lawrence da Arábia. Mas a revolta e o papel de Lawrence ainda geram polêmica entre os historiadores.

"Grandes trechos do filme são fictícios", diz Catherwood. "Fica parecendo que os árabes foram traídos por britânicos e franceses. É como se os valorosos libertadores árabes fossem manipulados pelos perversos ocidentais", diz ele. "Investigações recentes deixam claro que não foi o que aconteceu. O que ocorreu foi uma invasão australiano-britânica, comandada pelo general Allenby, que de fato libertou toda a região dos turcos, junto com invasões das tropas indianas lideradas por britânicos. Não fosse isso, o exército turco teria saído vitorioso e a revolta teria sido relegada ao esquecimento." Segundo Catherwood, realmente havia árabes descontentes com o domínio turco, sobretudo quando as atrocidades contra os armênios atingiram escala genocida. Mas a proporção de árabes que se revoltaram e combateram ao lado dos britânicos foi pequena. Seja como for, tribos árabes ficaram frustradas no fim da guerra, quando os turcos jogaram a toalha. Franceses e britânicos lotearam as terras do Império Otomano e as dividiram em fronteiras novas. "Até os nomes refletem essa artificialidade. Iraque havia sido uma província medieval com fronteiras muito diferentes das atuais. Síria, Líbano e Palestina são nomes da Antiguidade clássica que não haviam sido utilizados na região durante mil anos", diz Lewis.

Os franceses criaram o Líbano atual tomando parte da Síria, enquanto os britânicos traçaram as fronteiras da Transjordânia (atual Jordânia), do Iraque e do Kuwait. Na cabeça de cada um desses países, os europeus puseram líderes de clãs árabes pró-Ocidente para endossar seus interesses pelo petróleo. “Essa criação de nações com fronteiras artificiais, unindo povos com identidades e lealdades ancestrais muito distintas, foi um processo frágil que plantou a semente de crises de legitimidade e poder”, diz o americano John Esposito, professor de Estudos Islâmicos na Universidade de Georgetown. Na Turquia, último vestígio do Império Otomano, convencido de que precisava modernizar o país, o líder turco Kamal Ataturk instituiu a República, separou a religião da política e aboliu o califado – que havia sido o símbolo da identidade muçulmana durante 13 séculos. É a esse momento que Bin Laden se refere ao falar dos 80 anos de “humilhação” do Islã. Afinal, boa parte do mundo muçulmano se via nas mãos de líderes ocidentalizados. A a colonização não durou mais que 30 anos, mas ajudou a enterrar a unidade muçulmana da época medieval.

Na Palestina, a Inglaterra se viu com uma batata quente nas mãos: conter os crescentes enfrentamentos entre árabes e judeus. Ambos reivindicavam aquelas terras para a construção de seu lar nacional. Em 1947, os ingleses abriram mão da colônia e passaram a bola para a Assembléia Geral da ONU, que votou pela divisão da Palestina em dois estados: um judeu e outro árabe (palestino). Os judeus aceitaram o plano, mas a Liga Árabe o rejeitou.

Resultado: após sua independência, em 1948, Israel foi invadido pelos países vizinhos. Tinha início a primeira das seis guerras árabesisraelenses – e com ela o problema dos refugiados palestinos. Com o cessar-fogo, em 1949, Israel ficou com parte de Jerusalém e um território um pouco maior que o planejado pela ONU. As zonas que seriam destinadas aos palestinos – Gaza e Cisjordânia – ficaram com Egito e Jordânia, dois países árabes, mas o Estado palestino não foi criado.

Islamismo x Islã
Nos anos 50 e 60, a Guerra Fria dividiu o Oriente Médio entre dois blocos de Estados antagônicos. “Os chamados conservadores, como a Arábia Saudita, os sultanatos, emirados, a Jordânia e o Marrocos, formavam um grupo de monarquias sob forte influência ocidental – especialmente dos Estados Unidos”, diz o historiador Peter Demant, da Universidade de São Paulo, em O Mundo Muçulmano. “Por outro lado, houve uma série de regimes ditos progressistas, originados de revoluções antiocidentais. Foi o caso de Egito, Líbia, Síria, Iraque e Argélia, alinhados à União Soviética, com um discurso nacionalista e socialista.” O ditador egípcio Gamal Abdel Nasser, por exemplo, promovia a união dos árabes sob a bandeira do pan-arabismo. “Mas o nacionalismo/socialismo árabe se viu desacreditado pela desastrosa derrota de Egito, Jordânia e Síria frente a Israel na guerra de 1967 [quando Israel conquistou Jerusalém oriental, Gaza, Cisjordânia e as colinas do Golã], além do fracasso econômico e da corrupção de seus governos”, diz Esposito.

A essa altura, uma enorme sensação de insatisfação se propagava entre as massas do Oriente Médio e do mundo islâmico. Ela criou condições para a emergência de um movimento radical, o popular “fundamentalismo”, embora seja mais correto dizer “islamismo”.

"O islamismo é uma ideologia totalitária que busca o poder sob a desculpa da religião", diz o analista espanhol Gustavo Arístegui em O Islamismo Contra o Islã. "É uma manipulação da religião islâmica." Os islamistas (fundamentalistas) dizem que o Islã errou ao adotar o modo de vida ocidental. Portanto, é preciso derrocar os governantes muçulmanos moderados e implantar regimes baseados na sharia. “No longo prazo, eles pretendem formar uma federação desses regimes e restabelecer o califado”, diz Arístegui. O berço desse radicalismo foi o grupo Irmandade Muçulmana, criado no Egito em 1928. O fundador, Hassan al-Banna, defendia a purificação do Islã contra qualquer elemento ocidental. Banna foi morto pelo governo do Cairo, mas sua ideologia sobrevive em grupos como Hamas e Hezbollah e na rede terrorista Al Qaeda. O palestino Abdullah Azzam, mentor de Bin Laden, era da Irmandade Muçulmana. O egípcio Said Qutb, ideólogo do grupo, influênciou muito o líder da Al Qaeda. “Esses radicais justificam o terrorismo recitando a lista de ressentimentos padecidos por culpa do Ocidente: as Cruzadas, o colonialismo, a criação de Israel, a Guerra Fria e a presença americana nas terras sagradas do Golfo”, diz Esposito. Bin Laden tem pouco (ou nada) a ver com a causa palestina. Mas falar em nome dela, como pode ser notado hoje, é garantia de apoio.

Illuminati

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Fidelidade ao Código Espírita, por Allan Kardec





Venho informar a todos, que o item 67 do capítulo XV de “A Gênese”, por Allan Kardec, foi suprimido pela FEB e por algumas editoras, substituindo-o pelo item 68; trata-se da discussão: se Jesus teve um corpo carnal e, ou, fluídico. Observem as afirmações nas obras de Allan Kardec, que são claras.

Eles aderem aos conceitos de Roustaing, que são contrários a Kardec e os misturam com os deste.

Os livros de Allan Kardec devem ser publicados na íntegra e íntegros, segundo os seu verdadeiro autor.

Exponho aqui o tema, junto ao item 67 e, a “A Gênese” completa, no grupo de livros, tradução de Carlos de Brito Imbassahy, cujo próprio tradutor me enviou os capítulos enquanto os traduzia. Versão do original francês, de 1868, 3ª edição; fiel à autoria.

O item desaparecido é este: Os milagres do Evangelho

Desaparecimento do corpo de Jesus - cap.XV - 67

Consta a seguir:

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A Gênese – cap.15

DESAPARECIMENTO DO CORPO DE JESUS

64. – O desaparecimento do corpo de Jesus após sua morte tem sido o objeto de numerosos comentários; ele é atestado pelos quatro evangelistas, sobre as declarações das mulheres que estavam presentes ao sepulcro ao terceiro dia e não o encontraram aí.

Alguns viram neste desaparecimento um fato miraculoso, outros supuseram um transporte clandestino.

Conforme uma outra opinião, Jesus não teria se revestido de um corpo carnal, mas somente de um corpo fluídico; ele não teria sido durante a vida senão uma aparição tangível, em uma palavra, uma espécie de agênere.

Seu nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida teriam sido apenas uma aparência. É assim, diz-se, que seu corpo retornando a seu estado fluídico, pôde desaparecer do sepulcro e é com este mesmo corpo que ele teria se mostrado após sua morte.
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(*) N.do trad. – Perante os conhecimentos atuais correlatos a fluidos e energias, completamente distintos do que se sabia à época de Kardec, não há a mínima possibilidade da existência do referido agênere, sem que a ele corresponda uma fonte permanente geradora de energia. E não havia tecnologia para tal.

65. – A estada de Jesus sobre a Terra apresenta dois períodos: o que precedeu e o que seguiu à sua morte. No primeiro, após o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa na casa materna como nas condições ordinárias da vida (1).

Após o nascimento até sua morte tudo, em seus atos, em sua linguagem e nas diversas circunstâncias de sua vida, apresenta as características não equívocas da corporeidade.

Os fenômenos de ordem psíquica que se produzem nele são acidentais e nada anormais já que se explicam pelas propriedades do perispírito, e se reencontra em diferentes graus entre outros indivíduos.

Após sua morte, a contrário, tudo nele revela o ser fluídico.

A diferença entre os dois estados é de tal forma talhada, que não é possível de assimilá-las.
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(1) Não falamos do mistério da encarnação, pois não temos que nos ocupar aqui, e que será examinado ulteriormente.

O corpo carnal tem as propriedades inerentes à matéria propriamente dita e que diferem essencialmente daquela dos fluidos etéreos; a desorganização aí se opera pela ruptura da coesão molecular. Um instrumento cortante, penetrando no corpo material divide os tecidos; se os órgãos essenciais à vida forem atacados, seu funcionamento cessa e a morte se segue, isto é, a morte do corpo.

Esta coesão não existindo nos corpos fluídicos, a vida não repousa sobre o jogo dos órgãos especiais e não pode aí se produzir desordens análogas; um instrumento cortante ou qualquer outro, aí penetra como
em um vapor, sem nele causar qualquer lesão.

Eis porque esta sorte de corpos não pode morrer e porque os seres fluídicos designados sob o nome de agêneres não podem ser destruídos.

Sem dúvida, um semelhante fato não é radicalmente impossível após o que se sabe atualmente sobre as propriedades dos fluidos, (*) mas seria, no mínimo, de toda feita, excepcional em oposição formal com o caráter dos agêneres (Cap. XIV, n° 36).

A questão é, pois de saber se uma tal hipótese seja admissível, se é confirmada ou contraditada pelos fatos.

Após o suplício de Jesus, seu corpo ficou lá, inerte e sem vida; ele foi sepultado como os corpos ordinários e cada um pôde vê-lo e tocá-lo.

Após a ressurreição, quando ele quis deixar a Terra, ele não morre; seu corpo se eleva, se desvanece e desaparece sem deixar nenhum traço, prova evidente que seu corpo era de uma outra natureza que a que permaneceu na cruz, de onde é preciso concluir que se Jesus
pôde morrer, é que ele tinha um corpo carnal.

(N. do trad. – aqui Kardec elimina qualquer possibilidade docetista da existência de um corpo só fluídico durante a vida carnal de Jesus).

Por conseqüência de suas propriedades materiais, o corpo carnal é o signo das sensações e das dores físicas que repercutem no centro sensitivo ou Espírito.

Não é o corpo que sofre, é o Espírito que recebe o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Em um corpo privado de Espírito, a sensação é absolutamente nula; pela mesma razão, o Espírito que não tenha corpo material, não pode experimentar os sofrimentos que são o resultado da alteração da matéria; donde, é preciso igualmente concluir que se Jesus sofreu materialmente como nem restará dúvida, é que ele tinha um corpo material de uma natureza semelhante à da de todo mundo.

66. – Aos fatos materiais vêm se ajuntar considerações morais todo-poderosas.

Se Jesus tivesse estado durante sua vida nas condições dos seres fluídicos, não teria experimentado nem a dor, nem nenhuma necessidade do corpo; supor que ele o fosse assim, é tirar-lhe todo o mérito da vida de privação e de sofrimentos que ele escolhera como exemplo de resignação.

Se tudo nele fosse apenas aparência, todos os atos de sua vida, o anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua prece a Deus de afastar o cálice de seus lábios, sua paixão, sua agonia, tudo até seu último brado no momento de render o Espírito, teria sido apenas um vão simulacro por dar o troco sobre sua natureza e fazer crer no sacrifício ilusório de sua vida, uma comédia indigna de um simples honesto homem, com mais forte razão de um ser assim superior; em uma palavra, ele teria abusado da boa fé de seus contemporâneos e da posteridade.

Tais são as conseqüências lógicas deste sistema, conseqüências que não são admissíveis porque é abatê-lo moralmente, em vez de elevá-lo.

Jesus, pois, teve, como todo mundo, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que atestam os fenômenos materiais e os fenômenos psíquicos que marcam sua vida.

“67. – Em que se transformou o corpo carnal?

É um problema cuja solução não se pode deduzir, até nova ordem, salvo por hipóteses, falta de elementos suficientes para assegurar uma convicção. Esta solução, aliás, é de uma importância secundária e não juntaria nada aos méritos do Cristo nem aos fatos que atestam, de uma certa maneira bem contrariamente peremptória, sua superioridade e sua missão divina.

Não pode, pois, haver sobre a maneira na qual esse desaparecimento se operou senão opiniões pessoais que teriam valores apenas igualmente quanto as que fossem sancionadas por uma lógica rigorosa e pelo ensinamento geral dos Espíritos; ora, até o presente, nenhuma das que foram formuladas recebeu a sanção deste duplo controle.

Se os Espíritos ainda não resolveram a questão pela unanimidade de seus ensinamentos, é que, sem dúvida, o movimento da resolução não veio ainda ou que ainda falta conhecimentos em auxílio dos que possam resolvê-la por si própria. Em atentando, descarta-se a suposição de um rapto clandestino, poder-se-ia encontrar, por analogia, uma explicação provável na teoria do duplo fenômeno dos transportes e da invisibilidade. (Livro dos Médiuns, cap. IV e V)”

68. – Esta idéia sobre a natureza do corpo de Jesus não é nova. No século IV, Apolinário de Laudicéia, chefe da seita dos apolinaristas, pretendia que Jesus nunca tinha tomado um corpo como o nosso, mas um corpo impassível que descera do céu no seio da Santa Virgem e não teria nascido dela; que, assim, Jesus não era nato, não tinha sofrido e não estava morto senão em aparência. Os apolinaristas foram anematizados pelo Concílio de Alexandria em 360, no de Roma em 374, e no de Constantinopla, em
381.

*

A Gênese – cap. 3 – Atenção para os itens 2, 3 e também o 4:

Tradução fiel – Imbassahy (Comparem com as suas)


FONTE DO BEM E DO MAL

1. – Deus sendo o princípio de todas as coisas e, este princípio sendo toda sabedoria, toda bondade, toda justiça, tudo que procedendo do que deva participar destes atributos, já que é infinitamente sábio, justo e bom, jamais poderia produzir algo insensato, de maldade ou de injustiça.

O mal que observamos não deve, pois, ter sua fonte n’Ele.

2. – Se o mal estiver nas atribuições de um ser especial que se denomine Ariman ou Satã, das duas, uma, ou este Ente seria igual a Deus e, por conseqüência, também poderoso e eterno como Ele, ou lhe seria inferior.

No primeiro caso, admitir-se-iam dois poderes rivais, lutando sem cessar, cada qual a destruir o que o outro faça e se contrapondo mutuamente. Esta hipótese é inconciliável com a unidade de vida que se revela na disposição do Universo.

No segundo caso, se este ente for inferior a Deus, estar-lhe-á subordinado; não podendo, assim, se tornar eterno como Ele, sem que Lhe seja igual, será, pois, um princípio; se ele foi criado, não poderia ter sido por Deus; Deus teria, assim, criado o Espírito do mal, o que seria a negação de sua infinita bondade. (*)
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(*) N. do trad. – Atualmente, alguns pesquisadores, ante descoberta de certos documentos da era em que Jesus viveu na Galiléia, admitem que os gnósticos, heterodoxos mais próximos seguidores do mestre e ditos cristãos do primeiro momento, como Simão, o Mago, admitiam a existência de dois deuses distintos, um do bem, que enviara Jesus à Terra e outro do mal, que tentava desvirtuar os homens, tese esta que hipoteticamente seria pregada por Pedro, em Roma mas que, por não ser compatível com a doutrina de Constantino que seguia e aceitava a lenda egípcia do Deus Sol, monoteísta, exigiu que a nova doutrina dita cristã também se tornasse monoteísta, daí, terem os sábios da época se servido do apóstolo Paulo, em vez de usar os ensinamentos de Pedro para instituírem a Igreja Romana.

3. – Conforme certa doutrina, (*) o Espírito do mal, criado bom, seria transformado em mal e Deus, para lhe punir ter-lhe-ia condenado a se tornar eternamente malvado, e lhe teria dado por missão seduzir
os homens a fim de lhes induzir ao mal; opulência uma só queda podendo merecer -lhe os mais cruéis castigos eternos, sem esperança de perdão, haveria aí mais que uma falta de bondade, porém, uma crueldade premeditada, pois por encontrar a sedução mais fácil e melhor ocultar a armadilha, Satã estaria autorizado a se transformar em anjo de luz e a simular as mesmas obras divinas até mesmo se equivocar.

Seria de séria inquietude e imprevidência da parte de Deus, pois toda liberdade confiada a Satã de sair do império das trevas e de se entregar aos prazeres mundanos para arrastar os homens, o provocador do mal teria menor punição que as vítimas de suas astúcias que A Gênese – cap. 3, itens 2 por fraqueza, uma vez que, no abismo, de lá não mais poderiam sair.

Deus lhe recusa um vidro de água por mitigar-lhe a sede e, durante toda a eternidade decide, ele e seus anjos, seus queixumes sem se deixar comover, ao passo que permite a Satã todo o gozo que desejar.

Dentre todas as doutrinas sobre a teoria do mal, esta, sem dúvida, seria a mais irracional e a mais injuriosa para a divindade. (Ver Céu e Inferno – Cap. X – Os demônios)
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(*) – N. do t. – Leia-se: roustaingismo, motivo pelo qual este item foi supresso de certas traduções facciosas.

4. – Entretanto, o mal existe e possui uma causa.

O mal é de todas as sortes. Há, em princípio, o mal físico, o mal moral, além disso, os males que o homem pode evitar e os que são independentes de sua vontade. Entre estes, é preciso colocar os flagelos naturais.

Em suas faculdades, o homem é limitado, não pode penetrar nem se abranger conjuntamente à visão do Criador; julga as coisas ao ponto de vista de sua personalidade, dos interesses de facções e de convenções que cria e que não estão absolutamente na ordem natural; é por isso que ele encontra freqüentemente maldades e injustiça que considera justa e admirável, se visse a causa, a meta e o resultado definitivo.

Procurando a razão de ser e a utilidade de cada coisa. Ele reconhecerá que tudo leva a marca da sabedoria infinita e se curvará ante tal sabedoria, mesmo pelas coisas que não compreenda.

*

Indicações de Leitura que fazem análise das Obras de Roustaing.

Kardec, A. Revista Espírita, 1866, editora Edicel.

______________________, 1861, editora Edicel.

______________________, 1867, editora Edicel.

Costa, Luciano. Kardec e Não Roustaing. Editora LAKE.

Ferreira, Carlos Alberto. Será a Obra de Roustaing Espírita? Editora Opinião E. Capivari.

Garcia, Wilson. O Corpo Fluídico. Edições Correio Fraterno do ABC – São Paulo.

Prestes, Erasto de C. Kardec X Roustaing. Editora ECO, Rio de Janeiro – Niterói – 1984.

Pires, J. H. Agonia das Religiões. Editora Paidéia, 1989.

_________ Revisão do Cristianismo. Editora Paidéia, 1980.

_________ O Espírito e o Tempo. Editora Paidéia, 1983.

Silva, Gélio L. Conscientização Espírita. Editora Opinião E. Capivari – SP, 1995.

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As indicações de leitura acima constam no livro: O Verbo e a Carne.

Vamos todos mostrar e comparar os ensinamentos da doutrina, aos de novos grupos que surgem, dizendo-se espíritas, o que não são, porque se posicionam de forma oposta à codificação. Publiquem esses fatos.

Cada qual é livre para ser adepto a qualquer segmento que escolha, mas que não nomeie de espírita o que não o é. Eis a questão.

É indispensável se conhecer a codificação, para perceber o que lhes é dito e feito, não permitindo adulterações. Afinal, quem precisa de uma federação assim?

Nós, internautas somos livres, conscientes e responsáveis.

Sabemos examinar e avaliar o conteúdo da Doutrina Espírita, justamente por conhece-la.

Proponho o exame do livro: O Verbo e a Carne, de Herculano Pires e Júlio Abreu Filho.

Utilizem-se dos livros disponibilizados nesta comunidade.

Façam as suas apreciações.